sábado, 26 de novembro de 2011

Aforismo 261 - Os tiranos do espírito


Neste aforismo Nietzsche apresenta a tirania dos filósofos gregos, por exemplo Platão, um dos filósofos primeiros que impõe a verdade. Platão sendo lido como tirano demonstra a ideia de imposição de seu pensamento. A tirania e a oligarquia na filosofia nitzschiana são consideradas decadentes, e a democracia uma forma corrompida. Para Nietzsche, Platão foi um filósofo perdido, pois considerava que ele tinha uma alma nobre, mas foi corrompido por Sócrates.
"Esses filósofos [gregos] tinham uma sólida fé em si mesmos e em suas 'verdades', e com ela derrubavam todos os seus vizinhos e precursores; cada um deles era um belicoso e violento tirano. (...)Platão foi o desejo encarnado de se tornar o supremo filósofo-legislador e fundador de Estados. (...) Não é uma questão ociosa imaginar se Platão, permanecendo livre do encanto socrático, não teria encontrado um tipo ainda superior de homem filosófico, para nós perdido para sempre."

Questão: Como inserir um espírito livre a partir da imposição dos gregos?
Nietzsche defende uma saida: o que o homem fizer com a sua vida, influenciará no jogo das forças subsequentes. A vida passada como niilista terá um impacto, aquilo que formos terá um impacto na sociedade. Isto está nas nossas mãos (particularmente de cada um), sem um imperativo para isso.

Aforismo 237 - Renascimento e Reforma


"O Renascimento italiano abrigava em si todas as forças positivas a que devemos a cultura moderna: emancipação do pensamento, desprezo das autoridades, triunfo da educação sobre a arrogância da linhagem, entusiasmo pela ciência e pelo passado científico da humanidade, desgrilhoamento do indivíduo, flama da veracidade e aversão à aparência e ao puro efeito (...)"
Aqui Nietzsche apresenta o que de positivo viria com o Renascimento, o que traria de mudança dos valores para a cultura moderna. Lutero com a Contra-Reforma atrasa este processo; quase três séculos de atraso do "despertar e domínio da ciência".

"Foi o acaso de uma constelação política excepcional que preservou Lutero e fez o protesto ganhar força (...). Sem esse estranho concerto de objetivos, Lutero teria sido queimado como Hus - a aurora do Iluminismo teria surgido, talvez um pouco antes, e com brilho mais belo do que agora podemos imaginar."
Nietzsche não concorda com o estabelecimento do estado democrático, e para ele, no Iluminismo estavam as ferramentas para destruir este estado, e se não fosse Lutero, este Iluminismo teria chegado ainda antes.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Aforismo 225 - O espírito livre, um conceito relativo


"É chamado de espírito livre aquele que pensa de modo diverso do que se esperaria com base em sua procedência, seu meio, sua posição e fundação, ou com base nas opiniões que predominam em seu tempo. Ele é a exceção, os espíritos cativos são a regra (...)."
O espírito livre abordado por Nietzsche é sempre relativo ao espírito cativo. O espírito livre para ele, é aquele que está liberto das convenções, das amarras da vida em comunidade, não está ligado a moral, é aquele que pode chegar a verdade por meios imorais, que tem a verdade ou que tem o espírito da busca da verdade, com ânsia de ser notado. Relativos aos espíritos livres, os espíritos cativos, para Nietzsche, são aqueles que assumem uma posição por hábito e não por razão, temem os espíritos livres e têm senso de comunidade, com uma estreiteza de possibilidades.
Comparado ao espírito cativo, o espírito livre é sempre débil, eles observam as dificuldades e multiplicam as possibilidades; já os cativos têm os motivos ao seu lado e o apoio da tradição.

Capítulo 5 - Aforismo 224 - Enobrecimento pela degeneração


"A história ensina que a estirpe que um povo conserva melhor é aquela em que a maioria dos homens tem um vivo senso de comunidade, em consequência da identidade de seus princípios habituais e indiscutíveis, ou seja, devido a sua crença comum."
Neste capítulo onde Nietzsche lança os sinais de cultura superior e inferior, emprega neste aforismo a formação dos hábitos de cada indivíduo.

"As naturezas degenerativas são sempre de elevada importância, quando deve ocorrer um progresso(...). O homem doentio, por exemplo, numa estirpe guerreira e inquieta, poderá ter mais ocasião de estar só e assim se tornar mais tranquilo e sábio, o caolho enxergará mais agudamente, o cego olhará para o interior mais profundamente, e em todo caso ouvirá com mais apuro."
Para Darwin, são os aptos que triunfam numa comunidade. Aqui vemos uma crítica a Darwin, pois Nietzsche defende que para haver uma forte natureza é necessária uma natureza degenerativa. Esta natureza degenerativa é necessária para seu crescimento, onde o mais fraco tende a se tornar o mais forte. As naturezas mais fortes garantem o tipo (conjunto de características) e as mais fracas desenvolvem-o; de indivíduos mais independentes, inseguros e moralmente fracos que nasce o progresso espiritual, pois experimentam o novo e o diverso.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

221 – A revolução na poesia

"- A severa coerção que se impuseram os dramaturgos franceses, com respeito a unidade de ação, de tempo e lugar, ao estilo, à construção do verso e da frase, à escolha de palavras e pensamentos, foi uma escola tão importante como a do contraponto e da fuga na evolução da música moderna, ou como as figuras de Górgias na eloquência grega."
Nietzsche ressalta neste aforismo a proximidade poética entre os franceses e os gregos. Notamos a arte contemporânea se perdendo, pois tudo já está criado, e voltando ao início da sua experimentação.

"Aos próprios franceses faltaram, depois de Voltaire, os grandes talentos que teriam prosseguido com a evolução da tragédia, da coerção à aparência de liberdade (...)"
Aqui Nietzsche faz uma defesa de Voltaire. E notamos no aforismo que mantém seu posicionamento a respeito de Shakespeare, onde destaca uma citação de Byron: "Considero Shakespeare o pior modelo, embora o mais extraordinário dos poetas."

Logo no aforismo 222 (O que resta da arte), aborda que a arte vinculada a metafísica também ja perdeu seu espaço, assim como a religião. Cita que "O homem científico é a continuação do homem artístico." Em seguida, no aforismo 223 (Crepúsculo da arte), ressalta que em breve iremos deparar o artista como "vestígio magífico (...) cuja força e beleza dependia a felicidade de tempos passados...", e termina o aforismo e também o capítulo considerando que "o sol já se pôs, mas o céu de nossa vida ainda arde e se ilumina com ele, embora não mais o vejamos." video

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Aforismo 162 – Culto ao gênio por vaidade



No aforismo 153 Nietzsche começa a falar sobre o gênio, e neste aforismo ele desenvolve mais sua ideia. Aqui ele trata que o culto ao gênio e sua admiração a distância é enganoso, pois diz ser parte da vaidade do homem que por amor-próprio cultua o gênio de longe. E, ao não sentir desejo de inveja ou significar o gênio como “divino”, o homem está dizendo que a competição não é necessária.
“Mas, não considerando estes sussurros de nossa vaidade, a atividade não parece de modo algum essencialmente distinta da atividade do inventor mecânico, do sábio em astronomia ou história, do mestre na tática militar.”

“E além disso: tudo o que está completo e consumado é admirado, tudo o que está vindo a ser é subestimado.”

Podemos observar Nietzsche como um apreciador crítico, preocupado com o artista em seu vir-a-ser. O gênio, por exemplo, não é mais algo sobre-humano, mas é aquele que faz parte de um processo de construção. Nesse sentido, os criadores do futuro deveriam ser mais apreciados.



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Obs: nesse vídeo é apresentado o processo de criação de Paul Jackson Pollock e um relato do próprio pintor sobre sua maneira de criar.

Aforismo 150 – Vivificação da arte


“A arte ergue a cabeça quando as religiões perdem terreno. Ela escolhe muitos sentimentos e estados de espírito gerados pela religião, toma-os ao peito e com isso torna-se mais profunda, mais plena de alma, de modo que chega a transmitir elevação e entusiasmo, algo que antes não podia fazer.”
Neste aforismo percebemos que Nietzsche aborda decididamente a transição da religião para a arte. Com o Iluminismo o sentimento lança-se para a arte, e, até mesmo na vida política e na ciência. A ilusão e a mentira da religião podem ser vistas como necessárias para que a vida se tornasse mais bela, para que esse desvio de olhar fosse proveitoso para o homem.

“Sempre se nota, nos empenhos humanos, uma coloração mais intensa e mais sombria, pode-se presumir que o temor de espíritos, aroma de incensos e sombras da Igreja ali permaneceram.”

Nietzsche aborda que mesmo com esse desvio de olhar para a arte, onde a arte pôde ganhar vida, ainda restaram as sombras da religião, e que era preciso se livrar destas sombras nesta vivificação da arte.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Aforismo 148 – Os poetas tornando a vida mais leve

“Na medida em que também querem aliviar a vida dos homens, os poetas desviam o olhar do árduo presente, ou com uma luz que fazem irradiar do passado, proporcionam novas cores ao presente.”
A ligação com o passado pode ter o aspecto negativo de desligamento com o presente, o artista cria uma certa espécie de ópio que não ajuda a transformar a realidade.

Aforismo 147 – A arte conjurando os mortos

“A arte exerce secundariamente a função de conservar, e mesmo recolorir um pouco, representações apagadas, empalidecidas...”
Então, o primeiro papel da arte é abstrair-se da realidade, e o segundo como trata neste aforismo, é, ao contrário de Wagner, que mexia com o presente e tentava modificá-lo, voltar e “mexer” com o passado, fazendo reanimar algo que fora esquecido.“Por causa desse benefício geral da arte devemos perdoar o próprio artista, se ele não figura nas primeiras filas da ilustração e da progressiva virilização da humanidade...”
Aqui, se não houvesse o benefício geral, o artista não seria perdoado, ele somente está justificado por causar alguma coisa nas pessoas.

Aforismo 146 – O senso da verdade no artista


Neste aforismo é importante destacar que além da defesa da tese do vir-a-ser, Nietzsche defende outra importante tese para ele, em que o artista é superior a verdade.
“...considera o prosseguimento de seu modo de criar mais importante que a devoção científica à verdade em qualquer forma, por mais simples que ela se manifeste.”

O artista é considerado aquele ser que abstrai-se da realidade, e a partir disto, a ela, é dado um novo sentido.

Capítulo 4 - Aforismo 145 - O que é perfeito não teria vindo a ser



Aquilo que constituía a essência de uma obra de arte, seu ser, não é estabelecido repentina e instantaneamente.
No caso da música, por exemplo, muitos compositores levam anos para compor de devido modo. Assim são as obras de arte para Nietzsche, que são compostas por um acúmulo, um processo, e não por uma mágica ou um deus que faz brotar a perfeição do chão.“Diante de tudo o que é perfeito, estamos acostumados a omitir a questão do vir a ser...”
Nietzsche defende a tese de Heráclito, que é colocada também em Ecce Homo, da questão do vir-a-ser, do mundo em permanente movimento. Antes, na metafísica de artista, o artista, como no caso do músico, penetra em uma esfera que pré-existe e faz sua composição. Aqui é abandonada a metafísica.

“Está fora de dúvida que a ciência da arte deve se opor firmemente a essa ilusão e apontar as falsas conclusões e maus costumes do intelecto, que os fazem cair nas malhas do artista.”
Podemos observar aqui que não há a ciência contra a arte, mas a “ciência da arte”, não há um contraposto entre as duas. E, mesmo Nietzsche estando mais próximo da ciência, não abandona a arte. Aqui, na expressão “maus costumes do intelecto”, pode ser visto como o intelecto que vive com determinados conceitos deixa de apreender muitos aspectos da realidade.

sábado, 8 de outubro de 2011

Aforismo 141

Até então Nietzsche trata do cristianismo, o qual, para ele, é baseado numa psicologia falsa, do sentimento de culpa. Para o cristianismo os santos são de poderes, fazem milagres; para os antigos tudo isso é inexplicado. Pouco antes deste aforismo, Nietzcshe fala do santo e do asceta, sobre o domínio; eles dominam a natureza interior, ocorrendo uma tirania do seu próprio ser, que no fundo visa o domínio de si mesmo; para Nietzsche o santo tem um espírito forte. Não critica o budismo, por eles terem uma natureza mais tranquila; o santo é mais selvagem, é ambicioso (unir-se a Deus); o asceta nutre vingança e raiva e querem descarregar.

No cristianismo o pecado grave pode levar ao inferno, mas a misericórdia traz a salvação. Nietzsche não leva a sério, diz ser falso, uma crença errada. E hoje somos inocentes a isso, o sentimento de culpa é que faz sentido.
Nietzsche critica a epidemia de viver; e surge o interesse pelo asceta. Santos e ascetas com este domínio de si, são capazes de dominar os outros.
"Sabe-se que a fantasia sensual é moderada ou quase suprimida pela regularidade das relações sexuais, e inversamente se torna desenfreada e dissoluta com a abstinência ou a desordem nessas relações."
Aqui Nietzsche trata a fantasia da relação sexual como desenfreada, vê como uma sublimação, que se for canalisada pode ser usada para a criação de outras coisas.
"O olhar do santo, dirigido ao significado, terrível em todo o aspecto, da breve existência terrena, à proximidade da decisão final sobre infinitos espaços de nossas vidas, esse olhar em brasa, num corpo semi-aniquilado, fazia tremer os homens antigos em todas as profundezas; olhar, desviar o olhar com horror, de novo sentir o encanto do espetáculo, abandonar-se a ele, saciar-se com ele até a alma estremecer com ardor e calafrio - este foi o último prazer que a Antiguidade inventou, após ter se tornado insensível até mesmo à visão das lutas entre homens e animais."
Nietzsche trata o prazer que nasce do próprio mundo antigo, o último prazer que a Antiguidade inventou foi o olhar do santo, que nasceram com anseios de domínio.
Questão: Nietzsche já quer trazer a vontade de poder para o controle de si?
Aqui ainda não, a partir de Aurora fica mais explícito. No fundo Nietzsche tem um fascínio, uma ideia apenas.

Aforismo 133

Neste aforismo Nietzsche aborda criticamente os juizos humanos, as obras perfeitas da imaginação do homem. Critica Schopenhauer, o qual acreditava que a ação altruista é uma auto-fruição, e Nietzsche não acredita na existência de ações altruistas."Jamais um homem fez algo apenas para outros e sem qualquer motivo pessoal; e como poderia mesmo fazer algo que fosse sem referência a ele, ou seja, sem uma necessidade interna (que sempre teria seu fundamento numa necessidade pessoal)? Como poderia o ego agir sem ego?"

Lichtenberg e La Rochefoucauld são citados, Lichtenberg diz que sente pelo outro e que coloca-se no lugar do outro, e La Rochefoucauld diz ser por amor a nós mesmos; e para Nietzsche isso é altruismo.
"Se um homem desejasse ser todo amor como aquele Deus, fazer e querer tudo para os outros e nada para si, tal já seria impossível porque ele teria de fazer muitíssimo para si mesmo, a fim de poder fazer algo pelos outros. Depois pressupõe que o outro seja egoista o bastante para sempre aceitar este sacrifício..."Nietzsche defende a ideia de que para haver o altruista, necessariamente precisa-se de um egoista, e se todos fossem altruistas não existiria compaixão.
"...a ideia de um deus inquieta e humilha, enquanto nele se crê, mas no estágio atual da ciência etnológica, não há mais dúvida quanto a sua gênese..."
Coloca-se Deus no superior para ter poder no ser humano, Ele faz o que é bom, e o cristianismo precisa disso, o homem é o pecador e o rebaixado. Podemos pegar como semelhante o exemplo de Dom Quixote, que salva gigantes e donzelas; Servantes coloca contraposições com a baixeza do século XVII, há um distanciamento do real e do imaginário.

"Acabando a ideia de Deus, acaba também o sentimento do 'pecado'..."Aqui "pecado" no sentido irônico. Nietzsche teve experiência de sentir-se culpado pelo pecado, ele não aborda de algo que seja distante a ele.
No final é visto que se tudo é necessário (todas as ações), então o homem é um completo irresponsável.

domingo, 2 de outubro de 2011

Aforismo 130 - Sobrevivência do culto religioso no coração

"...a atmosfera de uma arquitetura que, sendo a habitação de uma divindade, se estende até o indefinido, e em todos os espaços escuros faz temer a presença dessa divindade (...) Os resultados de tudo isso não estão perdidos, todavia: o mundo interior dos estados de espíritos sublimes, comovidos, plenos de pressentimentos, profundamente contitos, ditosos de esperança, tornou-se inato aos homens através do culto, especialmente, o que dele existe agora na alma foi largamente cultivado quando o culto brotava, cerscia e florescia."
Aqui, ainda na abordagem da religião, vemos que Nietzsche faz a observação de que mesmo na transição da religião ela ainda continua vivendo no estado sublime, que o excesso de religiosidade mesmo em transição sobrevive.

Aforismo 126 - Arte e força da falsa interpretação



"-Todas as visões, terrores, esgotamentos e êxtases do santo são estados patológicos conhecidos, que ele, a partir de arraigados erros religiosos e psicológicos, apenas interpreta de modo totalmente diverso, isto é, não como doença." (...) Entre as maiores realizações daqueles que chamamos de gênios e santos se inclui a de conquistar intérpretes que os compreendem mal para o bem da humanidade."
Nesta época exercia-se a psicologia experimental (materialista), uma época positivista ciencificista; vemos este aforismo como complemento do aforismo 111 que Nietzsche tem uma visão seca da religiosidade, identificando-a como afetamento de uma doença no homem.

sábado, 1 de outubro de 2011

Aforismo 111 - Origem do culto religioso


Neste aforismo Nietzsche sonda a imaginação dos homens religiosos, surge o problema se a natureza é ausência de regras e como relacionar-se com a natureza. A religião surge como explicação para relacionar estes mundos, ter um certo domínio da natureza (para favorecimento dos interesses humanos), como necessidade de impor uma lei a natureza, neste aspecto a religião tem um caráter autoritarista.
"Se retornarmos aos tempos em que a vida religiosa florescia com toda força, acharemos uma convicção fundamental que já não partilhamos, e devido à qual vemos fechadas definitivamente para nós as portas da vida religiosa: tal convicção diz respeito à natureza e a relação com ela."
O homem inverte essa relação e o homem é a medida dessas relações.

"Naqueles tempos nada se sabia sobre as leis da natureza; seja na terrra, seja no céu, nadatinha que suceder; uma estação, o sol, a chuva podiam vir ou faltar. Não havia qualquer noção de causalidade natural."
Nietzsche cita exemplos das arbitrariedades, qualquer situação é uma força mágica no mundo homérico dos gregos. Ele faz uma transição, uma linha histórica dos gregos ao cristianismo.

"Nós homens modernos, sentimos precisamente o inverso: quanto mais interiormente rico o homem se sente hoje, quanto mais polifônica a sua subjetividade, tanto mais poderosamente age sobre ele o equilíbrio da natureza; juntamente com Goethe, todos nós reconhecemos na natureza o grande meio da tranquilização da alma moderna (...)"
Aqui vemos que é separado os tempos da religião e o tempo de Nietzsche (tempos modernos), demarca bem que o mundo da religião é o mundo passado e temos um grande avanço com esse saber. Nietzsche cita Goethe que está descobrindo as leis da natureza e faz uma crítica a modernidade, pois podemos considerar Nietzsche como um anti-capitalista romântico e está alheio a isso, prefere uma vida com ócio criativo.

"O sentido do culto religioso é influenciar e esconjurar a natureza em benefício do homem, ou seja, imprimir-lhe uma regularidade que a princípio ela não tem; enquanto na época atual queremos conhecer as regras da natureza para nos adaptarmos a ela."
Vemos que a religião exerce coações (magia - prejudicar o espírito) com as forças da natureza, e parece que Nietzsche acredita que a ciência faça isso melhor, ele está num certo otimismo com a ciência, mas como algo provisório neste contexto. Defende mais tarde que a relação com os deuses é pessoal e que pode-se também abandonar os deuses, faz uma descarga de sentimentos nos primórdios da religião; fala também que a crença foi invadida e o cristianismo fez isso em excesso, trabalha o santo e o asceta passando pelos gregos, por enquanto aqui os deuses olímpicos estão mais próximos.



Imagem: "Sownstorm" datado em 1842 - Joseph Mallord William Turner

sábado, 24 de setembro de 2011

Aforismo 109 - Sofrimento é conhecimento


Neste aforismo Nietzsche aborda a troca das afirmações dos sacerdotes, a afirmação de Deus, pela verdade. "A tragédia é que não podemos acreditar nesses dogmas da religião e da metafísica, quando trazemos no coração e na cabeça o rigoroso método da verdade, e que por outro lado, graças a evolução da humanidade, tornamo-nos tão delicados, suscetíveis e sofredores a ponto de precisar de meios de cura e de consolo da mais alta espécie; daí surge o perigo de o homem se esvair em sangue ao conhecer a verdade."
Há um certo pessimismo exposto, onde sem dores não se pode avançar nem crescer, e existe um rigoroso método de verdade como busca da verdade, mas as dores de se conhecer a verdade são como dores do parto, onde a verdade é terrível.

Nietzsche cita versos de Lord Byron, um poeta romântico que transfigura através da arte sua melancolia, embora seja Nietzsche crítico do romantismo, pois Lord Byron para ele era anti-romântico, era visto como sábio. Até mesmo Nietzsche usa o mesmo título do poeta neste aforismo, onde sofrimento está no sentido de aflição.
"Sofrimento é conhecimento: aqueles que mais sabem
Devem prantear mais profundamente a verdade fatal,
A árvore do conhecimento não é a da vida."

Aqui a "verdade fatal" é vista como pessimismo, e "a árvore do conhecimento não é a da vida" está relacionada ao livro Gênesis (Cap. 3, versículo 23 a 24), onde a árvore da vida tinha sido guardada no Jardim do Éden. Querer o conhecimento pode ser algo contrário a vida, cria um certo ceticismo, até mesmo um certo niilismo.

"Mas certamente a frivolidade ou a melancolia , em qualquer grau, é melhor do que a meia-volta ou deserção romântica (...)."
Aqui a tradução de "leichtsinn" do alemão como "frivolidade", pode ser melhor trocada pela tradução "leviandade", com um lado mais positivo de levar a vida, de um espírito livre, embora Nietzsche traz em Humano, Demasiado Humano um espírito livre ainda tenso. E aborda também a "consciência intelectual", como um jogo, um equilíbrio entre leviandade e melancolia para não cair no romantismo.

Questão: Nietzsche pode estar preocupado em não ter um "consolo"?

No fundo Nietzsche quer um consolo, mas ele cria espíritos livres. A ética em Humano, Demasiado Humano é gozar as coisas mais práticas.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Capítulo 3 – Aforismo 108 – A dupla luta contra o infortúnio



No livro Além de Bem e de Mal Nietzsche aborda temas semelhantes a estes escritos no capítulo 3, porem com mais radicalidade.

No aforismo 108 Nietzsche opera com três períodos: Religião, Política e Arte.
“A religião e a arte (e também a filosofia metafísica) se esforçam em produzir a mudança da sensibilidade, em parte alterando o juizo sobre os acontecimentos (por exemplo, com ajuda da frase: ‘Deus castiga a quem ama’), em parte despertando prazer na dor, na emoção mesma (ponto de partida da arte trágica).”

Na frase “Deus castiga a quem ama” aborda como as religiões têm efeito narcótico, de auto-hipnose, efeito sobre as causas. Religião e arte para Nietzsche têm efeitos que não diminuem as causas. “(...) o alívio e a anestesia momentâneos (...)”. A religião tem como função amenizar as dores humanas e não atua como verdade. Vemos também uma crítica a Shopenhauer, o qual tem uma visão positiva das religiões, religião é vista por ele como uma necessidade metafísica, e Nietzsche luta contra isso, pois vê a religião apenas como atestado de nossa fraqueza, uma unidade de tudo o que vive e sofre.

“Quanto mais diminuir o império das religiões e todas as artes da narcose, tanto mais os homens se preocuparão em realmente eliminar os males (...).” Alem da religião, a arte é vista aqui com um sentido amplo, os artistas são artistas da narcose.
Vemos neste aforismo a tragédia como centro no jovem Nietzsche, na tragédia temos a arte de transfigurar prazer em dor e dor em prazer.

“(...) pois há cada vez menos matéria para a tragédia, já que o reino do destino inexorável e invencível cada vez mais se estreita (...).” O mundo moderno tem um “bisturi” de danificação psicológica, tem espírito doloroso, de ferir a si mesmo.
Vemos aqui que Nietzsche quer “acertar contas” com a religião, então faz uma crítica direta e metódica a ela.

Questão: Como Nietzsche se coloca em relação a metafísica?

Nietzsche é anti-metafísico. Em Aurora a questão da metafísica fica mais insinuada. Por exemplo, Nietzsche não usa conceitos metafísicos, em Humano Demasiado Humano fica mais cuidadoso com a palavra “essência”, prefere utilizar “vida religiosa”. Existe um empirismo moral, opera com prazer e dor no campo empírico, aborda o espírito livre, tem a perspectiva de se livrar plenamente da metafísica.

Imagem: The Sacrifice of Isaac datada de 1590 á 1610 - Michelangelo Merisi da Caravaggio