segunda-feira, 26 de março de 2012

Introdução ao livro Aurora

Estilo aforístico: O livro Aurora segue o mesmo estilo de Humano, demasiado humano. Quando Nietzsche entra em contato com os livros dos moralistas franceses modifica sua forma de escrever, passando a redigir seu pensamento em forma de aforismos.
Período intermediário e temas: Também conhecido como positivismo cético ou somente positivista, que vem de Humano, demasiado humano até o terceiro livro, A Gaia Ciência. É neste livro, também, que se deu início às reflexões sobre a vontade de poder, que só seriam mais amplamente tratadas em Assim Falou Zaratustra. Disserta também sobre a filosofia do espírito livre, se volta para questões relacionadas aos impulsos, instintos, pulsões e como eles se expressam. Fala sobre relação entre consciência e memória com o eu (identidade). Trata das noções de sujeito, de alma, de essência, do mundo do vir a ser. Mostra que existe uma base impulsiva para as construções morais e faz crítica ao procedimento dogmático da moral e da maneira de se fazer filosofia. Coloca os instintos como soberanos, requalificando sua condição anterior.
Abordamos, também, em linhas gerais, o que ele propõe no decorrer do livro. E para melhor entender o que está por vir em nossas reuniões, e o que vimos em nosso primeiro encontro, basta ler o posfácio na integra. Mas para que vislumbrem colocarei aqui alguns fragmentos do que foi discutido na reunião:
“Tomando a tradicional divisão da obra de Nietzsche em três períodos, este livro se inscreve no período intermediário ou “positivista”, inaugurado por Humano, demasiado humano (1878). No entanto, algo que o diferencia deste e de seus dois complementos, Opiniões e sentenças várias (1879) e O andarilho e sua sombra (1880) e que representa mais um passo na libertação da influência de Wagner e Schopenhauer, é a ênfase dada por Nietzsche á “paixão do conhecimento”. Essa nova paixão é entendida, num plano universal, como o impulso em que a humanidade mesma sacrifica-se em prol do conhecimento (cf.seções 45 e 429), algo que o autor viria a chamar de “vontade de verdade” (Além do bem e do mal, 1).”.
“A crítica da moralidade cristã, já prenunciada em Humano..., toma corpo em Aurora transforma-se mesmo em campanha e continuará sendo refinada nas obras seguintes. Para Nietzsche, a concepção cristã do mundo utiliza categorias falsas e prejudiciais á vida humana: “alma”, “pecado”, “Deus”, “vida após a morte” não passam de ilusões que pretendendo nos consolar, apenas culminam e depreciam a existência.”.
Metodologia de estudo e influências em Nietzsche: Em nossa primeira reunião tivemos um panorama geral de como funcionaram nossos encontros, tivemos também um pequeno espaço para apresentação do projeto do Grupo de Estudos Nietzsche. Expomos a metodologia que será utilizada e voltamos nossos olhos para os sérios problemas de más interpretações, más traduções e os perigos de uma leitura desinteressada da obra filosófica de Nietzsche. Além da leitura do próprio livro teremos um espaço aberto para debates.
Uma ferramenta para alcançar uma boa interpretação das obras do filósofo é o estudo genético estrutural, que se define por privilegiar o texto e seu tempo, procurando entender sua estrutura interna juntamente com o ato de situá-la no momento sócio-cultural do autor. Dito isso, se torna interessante uma abordagem do contexto histórico em que Nietzsche esteve inserido em comunhão com uma pesquisa sobre o que influenciava suas criações, seus pensamentos e leituras filosóficas, no caso de Aurora, Nietzsche mantinha estudos na área da Biologia, da Física e da Medicina, dando ênfase aos progressos científicos de sua época, além da leitura de Auguste Comte, dos Moralistas Franceses e de outros pensadores, figuras como César Bórgia e Napoleão também são citados no decorrer do livro. Tais influências contribuíram de maneira direta para um novo pensar filosófico.
Para concluir vou citar algo curioso; "As primeiras anotações do que viria a ser Aurora foram feitas no início de 1880, quando Nietzsche se achava em Riva del Garda, no Norte da Itália. Depois prosseguiram em Veneza, (...). Foi apenas em Gênova, no inverno de 1880-81, que elas tomaram forma de livro(...)". Gênova, terra de Cristóvão Colombo, fato esse digno de reflexão, pois o filósofo já havia vislumbrado a criação de um nova nova maneira de enxergar o indivíduo, maneira esta que havia sido freado pela moral por muito tempo, será que assim como Colombo não estava o próprio Nietzsche navegando em busca de novos horizontes? Novas ideias? Novas auroras?


Citações: Pósfácio de Paulo César de Souza, página 311. Companhia das Letras.

4 comentários:

  1. "Meu caro senhor, aí vai o manuscrito e vejo como me é difícil separar-me dele!... Agora, urgência, urgência, urgência! Deixarei Gênova logo que o livro apareça e até lá viverei sobre carvões ardentes. Apresse-se, apresse o tipógrafo. Não pode levar a prometer, por escrito, que o mais tarde no fim de abril terei o meu livro na mão, pronto, acabado... Caro senhor Schmeitzner, que cada um de nós, desta vez, faça o melhor. O conteúdo do meu livro é tão importante! É para nós um ponto de honra que não lhe falte nada, que venha ao mundo digno e sem mancha. Rogo-lhe que faça isso por mim: sem reclamação. Poderia dizer-lhe muito mais, mas compreenderá tudo quando tiver lido o livro" (carta de Nietzsche ao seu editor).

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  2. Ótima iniciativa e contextualização

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  3. Estou prestes a ler o livro Aurora e gostaria de saber se a tradução realizada pela Editora Vozes é uma boa tradução. Obrigado.

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    1. Boa Noite Fernando, agradecemos por você ter entrado em contato! É boa sim, mas é importante salientar que o tradutor não costuma respeitar a mesma pontuação que o Nietzsche.

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