segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Retomada das atividades

      Nosso próximo encontro será no dia 11 de outubro (Sexta-Feira), 17 horas, sala 204 no Centro de Ciências Sociais (Rua Alberto Rosa 154). Neste semestre (2013/2) continuaremos debruçados sobre a obra A Gaia Ciência, partindo do livro III § 109 – Guardemo-nos!
Todos estão convidados! Abaixo segue um trecho do texto que será o tema da nossa próxima discussão:



“Mas como poderíamos nós censurar ou louvar o universo? Guardemo-nos de atribuir-lhe insensibilidade e falta de razão, ou o oposto disso; ele não é perfeito nem belo, nem nobre, e não quer tornar-se nada disso, ele absolutamente não procura imitar o homem! Ele não é absolutamente tocado por nenhum de nossos juízos estéticos e morais!”

sábado, 10 de agosto de 2013

V Encontros Nietzsche - UFPel

Entre os dias 19 e 24 de agosto ocorrerá o V Encontros Nietzsche - UFPel. 
Haverá conferências, debates, oficinas de leitura, atividades artísticas e lançamentos de livros. Tod@s estão convidad@s



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Aviso

Informamos que, em função da preparação e realização do Encontros Nietzsche, o Grupo de Estudos Nietzsche - UFPel entra em recesso até o dia 30/08 (a reunião do dia 09/08 está cancelada). A retomada do estudo da obra A Gaia Ciência se dará com a discussão dos aforismos 107 e 109, a ser conduzida por Clademir Araldi. 

Relato da reunião do dia 26/07/2013 sobre A Gaia Ciência §80 e §82

Autorretrato com a orelha cortada - Vincent Van Gogh (1889)
Na reunião do dia 26 de julho de 2013, foram lidos e debatidos os aforismos §76 e §77 de A gaia ciência (1882). Num primeiro momento, foi discutido o aforismo §76, “O perigo maior”, tendo sido entendido que para Nietzsche existe um grupo de homens que não consegue viver com fantasias, tendo uma necessidade de engessar o mundo. Foi a disciplina da mente desses homens, entendida enquanto racionalidade, que garantiu a preservação da humanidade. Por outro lado, haveriam os loucos, aqueles capazes da irrupção de loucura entendida como “irrupção do capricho no sentir, ver e ouvir, o gosto na indisciplina da mente, a alegria no ‘mau senso’”. Com isso foi discutido, durante a reunião, que o louco seria aquele portador da capacidade de mudança. Isto porque a loucura só é entendida enquanto tal pois é exceção, já que, se todos fossem loucos, a loucura seria a razão.
            Assim, entendeu-se que no pensamento de Nietzsche o que está em jogo para os homens que entendem ser a sua racionalidade o motivo de seu orgulho não é a verdade ou a certeza acerca de uma crença, mas sim submeter-se à lei da concordância, ou seja, o disciplinar de sua mente. De tal maneira, haveria o erro de dar sentido ao que não tem sentido, e a submissão a tal crença. No entanto, o filósofo compreende que justamente essa disciplina da mente foi a responsável pela conservação da humanidade.
            Quanto ao contexto de onde surgiriam esses loucos, observou-se que justamente os investigadores da verdade são os que primeiramente se cansam do ritmo lento dessa investigação, assim como artistas e poetas, pois são espíritos impacientes. Foi ressaltado que Nietzsche está utilizando termos que fazem referência à arte, como “metrônomos”, “ritmo”, “dança”. Também foi discutido que o erro conservou a humanidade, e que os loucos também são necessários para a economia da conservação, contanto que haja um controle sobre estes, pois são uma exceção que não pode tornar-se regra. Por fim, apontou-se o tom descritivo do aforismo, sem muitas prescrições, evidenciando-se que Nietzsche parece interessado em explicitar o papel que o louco tem, bem como seu perigo, não o vendo apenas como um indivíduo à parte da sociedade.
            Em seguida, com a leitura do aforismo §77, O animal com boa consciência, debateu-se que o Sul da Europa estaria mais marcado pela relação com o Império Romano, enquanto que o Norte com os bárbaros, sendo ressaltado que para Nietzsche a ideia de refinamento está relacionada com o mundo greco-romano, por isso havendo esta valorização do Sul como não possuindo problemas com a vulgaridade, posto que “o que aí é vulgar se apresenta com a certeza e segurança de si de qualquer coisa nobre”. Por outro lado, no Norte encontraríamos um rigor de costumes, havendo assim uma vergonha do artista que se rebaixa.

            Foi também debatido o significado do uso da imagem de máscaras no aforismo.  Seria no mesmo sentido da caracterização dos gregos como “superficiais por profundidade”, ou seja, como uma forma de encobrir a profundidade? Ou seria no sentido de o artista utilizar-se da máscara como forma de alcançar a universalidade? Assim, a  máscara seria associada à “regra”, e a “loucura” estaria relacionada às vanguardas. Com isso, entendeu-se que um gosto mais refinado não se utilizaria do artifício da máscara. 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Relato da reunião do dia 19/07/2013 sobre A Gaia Ciência §57 e §58

Retrato de Mademoiselle Caroline Rivière - Ingres (1806)
No encontro do Grupo de Estudos Nietzsche – UFPel do dia 19 de julho de 2013, deu-se início ao estudo do Livro II de A gaia ciência (1882) através da leitura e discussão dos aforismos §57 (“Aos realistas”) e §58 (“Somente enquanto criadores!”). 
Quanto ao aforismo §57, após sua leitura, foi destacado que nesta obra e, em especial, no Livro II, encontramos intensos diálogos com a arte. No entanto, também foi levantada a especulação de que ao falar de “realistas”, Nietzsche esteja se referindo à ciência mecanicista do século XIX, que se entendia enquanto isenta de paixões na sua prática, ou seja, que acreditava num acesso direto à realidade para o estabelecimento do conhecimento.  Portanto, Nietzsche se dirige a tais realistas como “queridas imagens de Sais”, numa referência à obra de Schiller em que um jovem egípcio busca a verdade e quando a descobre é acometido por algo ruim. Seria identificável, de tal forma, uma postura prepotente da ciência quando esta pensa ver a realidade do mundo como nunca se viu antes, fundando-se, por exemplo, numa confiança em seu rigoroso método. Ou seja, como se suas descrições do mundo estivessem isentas de qualquer cunho humano, como se não fossem baseadas em avaliações, fundadas em paixões humanas. E o que Nietzsche argumenta no aforismo é que estes “realistas” baseiam-se em avaliações ultrapassadas, oriundas de paixões de séculos passados.
Também foi apontado, durante a reunião, que encontramos neste período da obra do filósofo alemão a defesa de uma postura que continuará a ser apresentada até o seu período maduro, qual seja, a de que o importante para Nietzsche não será observar uma ciência ou um sistema filosófico analisando internamente seus dogmas ou conceitos, mas buscando quais impulsos estão subjacentes a estes. Assim, quando se fala em “buscar a verdade” numa ciência, por exemplo, o importante é entender quais os interesses estão ocultos nesta dita busca. Como forma de problematizar a questão, também foi ressaltado que a matemática surge como um forte instrumento para fundamentar a legitimação de tal realismo, justamente por servir de forte apelo retórico para formar uma visão do conhecimento como algo frio, sem qualquer interferência subjetiva.
Também foi questionado como compreender o estatuto da ciência, para Nietzsche, nesta relação entre a arte e o saber jovial, na medida em que o filósofo nega o seu caráter absoluto. Foi colocado, então, que o posicionamento de Nietzsche é relativo ao perspectivismo, entendido enquanto intermediário entre a posição radical de um dogmatismo e o relativismo, tendo em vista que para este último todas as posições possuem o mesmo valor, enquanto que para Nietzsche as coisas possuem valores diferentes.
Por fim, observou-se que o uso do termo “embriaguez” no aforismo refere-se a um estado da modernidade, e que os “homens sóbrios” seriam aqueles que também estariam embriagados, mas, no entanto, sem perceber sua embriaguez, enquanto Nietzsche aponta para outra perspectiva de “boa vontade em ultrapassar a embriaguez”. 
Após tais discussões, seguiu-se a leitura do aforismo §58, “Somente enquanto criadores!”. Nietzsche inicia tal aforismo apontando que lhe é mais importante compreender como as coisas se chamam do que aquilo que elas são, ao que durante a discussão relacionou-se com uma posição nominalista do debate dos universais, em que encontramos a diferença entre a essência e os nomes. Isto estaria ligado com o fato de, para Nietzsche, não haver uma realidade universal acessível sem avaliações. O filósofo entenderia, assim, que de uma postura inicial de fixação de nomes redundou-se em um essencialismo. Ou seja, a fixação dos nomes, dos pesos e medidas e do modo como as coisas são vistas “gradualmente se enraizaram e encravaram na coisa, por assim dizer, tornando-se o seu próprio corpo”: a aparência torna-se essência e atua como essência.

Por fim, foi especulado que novamente Nietzsche poderia estar criticando a ciência na medida em que apresenta uma nova proposta, a saber, a de que para destruir faz-se necessário criar algo novo. Com isso, estaria apontando o erro da ciência em acreditar que quando se desse a revelação das coisas verdadeiras, todas as interpretações anteriores estariam destruídas e descartadas enquanto errôneas, estando assim também fixado um futuro baseado em tais “verdades”. 

Sobre a imagem[1]:
Jean Auguste Dominique Ingres foi um conhecido pintor neoclassicista, considerado o último representante dos devotos às tradições da arte. Não por acaso, era reconhecido retratista (seu gênero favorito). Em seus quadros, acreditava captar e transmitir perfeitamente a essência do modelo sobre o qual se debruçava, através de uma "pureza linear". Dizia que conseguia fazê-lo de forma ainda mais excelente se almoçasse com o modelo ou pudesse fazer qualquer outra atividade que os descontraísse e aflorasse "as expressões naturais" da pessoa.
Algumas de suas obras não foram reconhecidas pela academia (ainda muito rigorosa nessa época) que lhe recomendava "estudar mais os clássicos", porém sem incorrer em arcaísmos, como às vezes fazia. Devido à sua paixão pelo ideal grego, chegava até mesmo a distorcer suas modelos na tela, a fim de "aprimorá-las". Como diz Giulio Carlo Argan explicando Canova (o fundador do belo ideal dessa época, porém fazendo-o majoritariamente através da escultura - o que só vem a nos mostrar a esmagadora influência dos gregos neste período), o belo ideal estava na figura ou, mais precisamente, no sublimar-se da figura até identificar-se com a ideia transcendental do belo. Ingres não admitia suas tendências de excessiva idealização que o levavam a distorcer forma e espaço – o que podemos entender como “a natureza corrigida pela arte”; tanto que se opôs veemente ao Romantismo que aflorava em sua época (com Delacroix, principalmente). No entanto foram justamente os adeptos deste movimento que souberam reconhecer seu valor, e não a academia a quem tanto respeitava.
O que vemos, então, é um artista que aperfeiçoa obsessivamente a técnica, produz em uma tela uma espécie de "fotografia idealizada" do modelo. É tão devoto às diretrizes da tradição clássica que distorce seu mundo a fim de segui-las. Ingres é um grego artificial e, junto de sua personalidade, carrega inovações que mais tarde servirão de inspiração para artistas Modernos como Picasso e Matisse, que estão longe de dobrarem-se às tradições. Ingres incorreu, em seu discurso, a uma autoenganação de que era inteiramente ortodoxo. Inebriado por sua paixão, apenas podia acreditar-se neoclassicista.



[1] Seleção e contextualização da imagem desenvolvidas por Luísa Caroline da Silveira Pogozelski.