terça-feira, 16 de julho de 2013

A Gaia Ciência §2 - A consciência intelectual

"A solidão no alvorecer" por Johann Heinrich Füssli

Neste aforismo, Nietzsche questiona as formas com que as pessoas se relacionam com as suas crenças. Enquanto por uma via há aqueles que possuem crenças mesmo sem fornecer as razões para elas; por outro lado há a via da suspeita. Sendo assim, Nietzsche inicia o aforismo argumentando que embora não queira acreditar naquilo que sua experiência lhe mostra como evidente, a saber, que “a grande maioria das pessoas não tem consciência intelectual”, tal observação é palpável demais para que consiga se rebelar contra ela. O filósofo alemão diagnostica que aqueles que consideram necessária tal consciência, e a exigem dos outros, encontram-se solitários, ainda que rodeados de pessoas, como nas cidades populosas, já que não há pares nessa sua exigência no trato com as crenças.
Nietzsche também aponta que não só as pessoas são desprovidas da referida consciência intelectual, como também são indiferentes àqueles que as alertam a respeito disso. Portanto, a indiferença das pessoas frente a este questionador funciona como um agravante ao deserto da sua solidão. Isto porque a indiferença se apresenta como a ausência de oposição, ou seja, sequer existe uma tensão, uma forma de interação com o questionador, ainda que de conflito. Logo, aquele que aponta que a forma de valorar das pessoas possa estar sendo injusta não recebe como retorno sequer indignação, e quando muito a reação será a de uma risada sobre a sua dúvida.
         Assim, a consciência intelectual está diretamente ligada à suspeita, à dúvida. Para Nietzsche, a grande maioria (o que incluiria “os mais talentosos homens e as mais nobres mulheres”) sequer duvida de suas crenças, não vê o problema que é estabelecer seus valores sem uma ponderação racional: “a grande maioria não acha desprezível acreditar isso ou aquilo e viver conforme tal crença, sem antes haver se tornado consciente das últimas e mais seguras razões a favor ou contra ela, e sem mesmo se preocupar depois com tais razões”. Assim, por melhor que seja alguém, por mais que seja dotado de “bondade, finura e gênio”, ainda seria um ser inferior, posto que de nada adianta tais virtudes se tal pessoa tolera em si mesma “sentimentos frouxos ao crer e julgar”, ou seja, se esta pessoa é leviana quanto ao que acredita e não tem a necessidade de buscar a certeza, o que caracteriza os homens superiores e os diferencia dos inferiores. 

         Até no piedoso, personagem que Nietzsche não admira, o filósofo identifica um ponto que nos melhores homens e mulheres não encontrou: este tem ódio à razão, o que seria uma tomada de posição frente à consciência intelectual, rejeitando-a, o que difere daqueles que são simplesmente indiferentes à ela. O que é desprezível para Nietzsche é estar diante de “toda a maravilhosa incerteza e ambigüidade da existência” e não se posicionar, nem interrogar e nem ter ódio por quem interroga, como o piedoso. Nietzsche aponta, então, que o que procura primeiramente nas pessoas é a percepção do quanto isto é desprezível, e argumenta que “algum desatino está sempre a me convencer de que todo ser humano tem esta percepção, como ser humano. É minha espécie de injustiça”. Ou seja, está sendo injusto na medida em que pensa que todos tem tal percepção, o que está relacionado com o aforismo seguinte, §3: Nobre e Vulgar, em que escreve sobre a “eterna injustiça dos nobres”. Tal injustiça significa que os nobres consideram sua idiossincrasia do gosto necessária a todos, afirmam posições novas partindo desta sua idiossincrasia, o que só é possível na medida em que estes não sentem a si mesmos como naturezas excepcionais.
Resumo efetuado por José Luiz Votto 

A Gaia Ciência §1 - Os mestres da finalidade da existência

O Enterro do Conde de Orgaz - El Greco

No encontro do GEN-UFPel do dia 24 de maio de 2013 foi dado o início ao estudo da obra A gaia ciência (1882) com a leitura e discussão do primeiro aforismo do Livro I, Os mestres da finalidade da existência. Este inicia com a afirmação de Nietzsche de que observa em todos os seres humanos o trabalho para a conservação da espécie, entendido não como motivado por um amor à espécie, mas enquanto o mais forte instinto nos homens. Este instinto seria “precisamente a essência da linhagem e rebanho que somos”, ou seja, estaria inerente em todos nós.
Ao advogar a tese de que um instinto inexorável, que direciona os homens à conservação da linhagem, está presente em toda a espécie, Nietzsche faz também uma crítica à divisão estanque das pessoas entre úteis e nocivas, pois até “a pessoa mais nociva pode ser a mais útil, no que toca à conservação da espécie; pois mantém em si ou, por sua influência, em outras, impulsos sem os quais a humanidade teria há muito se estiolado ou corrompido”. Desta forma, também tudo aquilo que se chama de mau (como a ânsia de rapina e domínio) seria parte de uma “assombrosa economia da conservação da espécie”, economia esta que, segundo Nietzsche, conservou a nossa estirpe.  Não haveria, então, ações boas ou más na medida em que de qualquer forma tais ações resultariam na conservação da espécie.
Nessa economia global da conservação da espécie, o peso da existência do sujeito deixa de ser tão forte, de modo que Nietzsche sugere que se siga “os seus melhores ou os seus piores desejos e, sobretudo, pereça!”, pois afinal não importaria o tipo do desejo, posto que, de qualquer forma, o seu leitor seria “benfeitor da humanidade”.  Com isso, Nietzsche está afirmando que o indivíduo visto da perspectiva da espécie não teria relevância, ou seja, que não haveria diferença para a continuidade da linhagem se o indivíduo adotou uma postura moral ou outra.
No entanto, ainda não teriam surgido aqueles capazes de rir inclusive das melhores características dos outros e de si mesmos, evidenciando sua “ilimitada miséria de rã e de mosca”, ou seja, sua insignificância num quadro geral da humanidade inscrita na história. Com isto, fica claro que ainda não se percebeu esta “verdade”, e também que sequer os melhores tiveram essa percepção, não tendo sido por isso capazes de rir de si mesmos.
Para Nietzsche, o riso só teria futuro a partir do momento em que a tese “a espécie é tudo, o indivíduo, nada” fosse incorporada à humanidade, abrindo-se o acesso a uma libertação e irresponsabilidade, de tal forma que “talvez o riso tenha se aliado à sabedoria, talvez haja apenas gaia ciência”. Contudo, Nietzsche diagnostica que no seu presente há uma tragédia, referente ao fato desse ser o “tempo das morais e religiões”. Com isto, o filósofo alemão se pergunta o que significa o aparecimento sempre renovado dos fundadores destas morais e religiões, dos incitadores da luta pelas avaliações morais e dos mestres dos remorsos e das guerras religiosas. Seguindo o contexto do termo tragédia, descreve esses como os “heróis num palco”, e coloca os poetas, por exemplo, como aqueles que sempre foram “camareiros de alguma moral”. Reiterando a sua tese de que todos trabalham para a conservação da espécie, movidos pelo mais forte dos impulsos; Nietzsche afirma que estes heróis também o fazem, ainda que pensem estar a serviço de Deus, eles, em verdade, “promovem a vida da espécie, ao promover a fé na vida”.
Tal impulso de conservação surgiria ocasionalmente como razão e paixão do espírito, trazendo motivos e querendo fazer esquecer que é impulso, ou seja, ausência de motivos. Isto seria efetuado através dos mestres da ética enquanto mestres da finalidade da existência. Estes seriam aqueles que dão sentido ao que não tem sentido, ou seja, as coisas que ocorrem necessariamente e por si, e que são explicadas por eles enquanto tendo sido feitas para uma finalidade, enquanto razão. Para isso, esse mestre da ética inventa uma segunda existência[3], pois esse mundo não possuiria sentido imanente, sendo necessário recorrer a algo fora dele. E também para eles não haveria espécie, posto o indivíduo ser algo primordial.
Contudo, Nietzsche argumenta que sempre que surgem tais éticas, essas são vencidas pelo tempo: “a breve tragédia sempre passou e retrocedeu afinal à eterna comédia do existir”, sendo esta comédia do existir aquela que traz um riso corretor. Apesar disso, no entanto, Nietzsche entende que houve uma modificação da natureza humana, pois haveria surgido uma nova necessidade, a saber, justamente a de que apareçam renovadamente tais mestres e doutrinas da finalidade. Esta necessidade seria referente à condição existencial de o homem ter de acreditar ocasionalmente saber a razão de sua existência.
Resumo efetuado por José Luiz Votto

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Introdução à obra "A Gaia Ciência"


Na reunião do dia 17 de maio de 2013 ocorreu o primeiro encontro do Grupo de Estudos Nietzsche – UFPel, no qual tivemos a apresentação da metodologia e dos objetivos aos novos integrantes. Para melhor situar estes novos integrantes foi comunicado o ambiente de pesquisa em Nietzsche no Brasil (GEN – Grupo de Estudos Nietzsche) e no exterior (GIRN – Groupe International de Recherches sur Nietzsche). Ainda sobre a pesquisa em Nietzsche, foram apresentadas as principais revistas brasileiras especializadas no filósofo alemão.  
Com base na biografia de CurtPaul Janz, destacou-se não só os aspectos biográficos de Nietzsche no período de  A gaia ciência (1882) –  obra que será discutida no grupo ao longo do ano – mas também o contexto e a estrutura da obra. Como complemento, foi lido em conjunto o escrito de Giorgio Colli (Escritossobre Nietzsche, p. 77-85), o qual nos fornece uma bela introdução sobre os temas presentes na obra, tais como a relação entre ciência e arte.
No xerox Meta Cópias ( Alberto Rosa esquina Alm. Tamandaré) está disponível um material de apoio às atividades do grupo.
A próxima reunião será no dia 24 de maio na sala D, às 17 horas. Iremos trabalhar os dois primeiros aforismos do livro I de A gaia ciência

domingo, 5 de maio de 2013

Defesa da dissertação: Nietzsche e a Renascença italiana: um ensaio sobre as imbricações entre estética, moral e política.


Início das atividades do Grupo de Estudos Nietzsche - UFPel


Iniciaremos as atividades do Grupo de Estudos Nietzsche – UFPel no dia 17 de maio (sexta-feira). Lembramos que o grupo não é destinado apenas aos estudantes de filosofia, mas também a todos os que possuem interesse na filosofia de Nietzsche. A reunião será na sala D do CCS (Rua Alberto Rosa n.154). A obra que estudaremos neste ano é “A gaia ciência” (1882).

Vejamos o que Giorgio Colli afirma sobre “A gaia Ciência”:

“A Gaia Ciência também é central no que respeita à posição entre arte e ciência. A paixão ininterrupta de Nietzsche por este tema reflete as vivências da luta interna entre as suas vocações antitéticas: de vez em quando um escrito revela o deslanche momentâneo da luta. Aqui, ao contrário, só o título é já o indício de uma nova resolução: o combate interior – um outro significado da ‘doença’ – não conduz à eliminação de um dos dois combatentes (reprimir, sufocar uma parte vital de si não seria de fato restabelecimento), mas à fundação de uma coexistência, numa esfera transfigurada. Isto é ‘saúde’, poder ser poeta e cientista conjuntamente, poder exercitar uma ciência não amuada, nem empertigada, nem sequer séria”.