quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Aforismo 150 – Vivificação da arte


“A arte ergue a cabeça quando as religiões perdem terreno. Ela escolhe muitos sentimentos e estados de espírito gerados pela religião, toma-os ao peito e com isso torna-se mais profunda, mais plena de alma, de modo que chega a transmitir elevação e entusiasmo, algo que antes não podia fazer.”
Neste aforismo percebemos que Nietzsche aborda decididamente a transição da religião para a arte. Com o Iluminismo o sentimento lança-se para a arte, e, até mesmo na vida política e na ciência. A ilusão e a mentira da religião podem ser vistas como necessárias para que a vida se tornasse mais bela, para que esse desvio de olhar fosse proveitoso para o homem.

“Sempre se nota, nos empenhos humanos, uma coloração mais intensa e mais sombria, pode-se presumir que o temor de espíritos, aroma de incensos e sombras da Igreja ali permaneceram.”

Nietzsche aborda que mesmo com esse desvio de olhar para a arte, onde a arte pôde ganhar vida, ainda restaram as sombras da religião, e que era preciso se livrar destas sombras nesta vivificação da arte.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Aforismo 148 – Os poetas tornando a vida mais leve

“Na medida em que também querem aliviar a vida dos homens, os poetas desviam o olhar do árduo presente, ou com uma luz que fazem irradiar do passado, proporcionam novas cores ao presente.”
A ligação com o passado pode ter o aspecto negativo de desligamento com o presente, o artista cria uma certa espécie de ópio que não ajuda a transformar a realidade.

Aforismo 147 – A arte conjurando os mortos

“A arte exerce secundariamente a função de conservar, e mesmo recolorir um pouco, representações apagadas, empalidecidas...”
Então, o primeiro papel da arte é abstrair-se da realidade, e o segundo como trata neste aforismo, é, ao contrário de Wagner, que mexia com o presente e tentava modificá-lo, voltar e “mexer” com o passado, fazendo reanimar algo que fora esquecido.“Por causa desse benefício geral da arte devemos perdoar o próprio artista, se ele não figura nas primeiras filas da ilustração e da progressiva virilização da humanidade...”
Aqui, se não houvesse o benefício geral, o artista não seria perdoado, ele somente está justificado por causar alguma coisa nas pessoas.

Aforismo 146 – O senso da verdade no artista


Neste aforismo é importante destacar que além da defesa da tese do vir-a-ser, Nietzsche defende outra importante tese para ele, em que o artista é superior a verdade.
“...considera o prosseguimento de seu modo de criar mais importante que a devoção científica à verdade em qualquer forma, por mais simples que ela se manifeste.”

O artista é considerado aquele ser que abstrai-se da realidade, e a partir disto, a ela, é dado um novo sentido.

Capítulo 4 - Aforismo 145 - O que é perfeito não teria vindo a ser



Aquilo que constituía a essência de uma obra de arte, seu ser, não é estabelecido repentina e instantaneamente.
No caso da música, por exemplo, muitos compositores levam anos para compor de devido modo. Assim são as obras de arte para Nietzsche, que são compostas por um acúmulo, um processo, e não por uma mágica ou um deus que faz brotar a perfeição do chão.“Diante de tudo o que é perfeito, estamos acostumados a omitir a questão do vir a ser...”
Nietzsche defende a tese de Heráclito, que é colocada também em Ecce Homo, da questão do vir-a-ser, do mundo em permanente movimento. Antes, na metafísica de artista, o artista, como no caso do músico, penetra em uma esfera que pré-existe e faz sua composição. Aqui é abandonada a metafísica.

“Está fora de dúvida que a ciência da arte deve se opor firmemente a essa ilusão e apontar as falsas conclusões e maus costumes do intelecto, que os fazem cair nas malhas do artista.”
Podemos observar aqui que não há a ciência contra a arte, mas a “ciência da arte”, não há um contraposto entre as duas. E, mesmo Nietzsche estando mais próximo da ciência, não abandona a arte. Aqui, na expressão “maus costumes do intelecto”, pode ser visto como o intelecto que vive com determinados conceitos deixa de apreender muitos aspectos da realidade.